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Doutrina “Donroe”: ataque à Venezuela é aviso aos demais governos da região

“Bem-vindos a 2026, e sob o governo Trump, a América está de volta”, afirmou o secretário de Defesa norte-americano Pete Hegseth durante a conferência de imprensa realizada na tarde deste sábado, após o governo americano invadir ilegalmente a Venezuela e sequestrar o presidente Nicolás Maduro.

O governo de Donald Trump construiu duas narrativas contraditórias para invadir e “administrar” a Venezuela, segundo palavras do próprio presidente. De acordo com a primeira, Nicolás Maduro é acusado pelos crimes de conspiração de narcoterrorismo, envio de cocaína e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos. É esta a base do indiciamento de Maduro e sua esposa pela Justiça de Nova York, para onde o presidente venezuelano está sendo levado depois de ser sequestrado em Caracas pelas forças militares e agentes da DEA, a Drug Enforcement Agency.

A segunda narrativa diz respeito ao “roubo” de petróleo “pertencente” a empresas americanas pelo governo venezuelano em 2006. Naquele ano, Hugo Chávez mudou a Lei Orgânica de Hidrocarbonetos para garantir que a estatal venezuelana PDVSA teria maioria acionária para a exploração de petróleo na Faixa do Orinoco, o maior campo de petróleo do mundo. Petroleiras americanas como a ConocoPhillips e Exxon Mobil não concordaram e processaram a Venezuela. O Banco Mundial, através de sua câmara de arbitragem, ordenou o governo venezuelano a pagar mais de 1 bilhão em recompensa, o que ainda não foi integralmente pago.

Por um lado, a insistência do governo dos EUA em reforçar essas duas narrativas demonstra que existe um esforço em convencer o público – pelo menos o interno – da legalidade dessas ações. Por outro, o motivo mais sincero para a ação – e também proclamado em alto e bom som – é colocar em prática a “doutrina Donroe”, uma versão que “vai muito além” da velha doutrina Monroe, criada em 1823 pelo então presidente dos EUA James Monroe para assegurar que não haveria interferência dos poderes europeus sobre a América Latina, numa época pós-colonialismo. Seu lema era “a América para os Americanos”.

“Segundo nossa nova estratégia de segurança nacional, a dominância americana no hemisfério ocidental nunca mais será questionada”, afirmou Trump, durante a conferência de imprensa, explicando a “Doutrina Donroe”. “Durante décadas, outras administrações negligenciaram – ou até mesmo contribuíram para – as crescentes ameaças à segurança em nosso hemisfério. Sob a administração Trump, isso parou”.

“Estamos agora reafirmando o poder americano em nossa região da forma mais poderosa”.

Para Trump, “o futuro será determinado pela capacidade de proteger o comércio, o território e os recursos que são centrais para nossa segurança nacional”.

“Estas são as leis de ferro que sempre ditaram o poder global”, concluiu.